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Longas cartas pra ninguém


Corte de cabelo

(crônica da vida real)

 

A menina adorava imitar a mãe em tudo. Era seu espelho. Aos três anos de idade, via aquela mulher que, para ela, era a mais linda do mundo, pentear-se, maquiar-se. Depois, esperava um descuido, um piscar de olhos, para fazer tudo igual – à medida que permitiam seus três aninhos.

Depois de uma sessão de embelezamento da mãe, correu para o quarto. Subiu na cama para conseguir acesso à cômoda. Lá estava tudo do que precisava. Dali, alcançava o espelho, os acessórios, a maquiagem e um objeto com o qual não tinha muita intimidade, mas arriscaria. Afinal, se deu certo com a mamãe, por que não?

Decidiu que ficaria bem com a franja mais curta. Com uma mão, agarrou uma boa mexa de cabelos e, num golpe só, passou-lhe a tesoura. Saindo do banho, a mãe viu logo a desgraceira. Um monte de cabelo na mão, a tesoura na outra e outra parte da cabeleira no chão. “Fiquei bonita, mamãe?”.

A mãe achava engraçado, mas também estava desolada. “Minha filha, o que você fez?”. “Ficou igual ao seu”, respondia a garotinha. O pai, ao vê-la, engoliu um palavrão. A mãe decidiu que seria sua primeira ida ao cabeleireiro. Definitivamente, ela precisaria de ajuda profissional. Lá foram as duas.

Horas depois, voltam com a novidade. O único jeito que o cabeleireiro encontrou de amenizar o desastre foi deixando-a de cabelos curtos. Ao vê-la, o irmãozinho de cinco anos largou tudo o que estava fazendo. O brinquedo não lhe interessava mais. Os olhinhos brilharam. “Que maravilha! Ela virou um menino! Agora eu tenho um irmãozinho pra brincar muito mais!”.

 

***

Trilha sonora: Estou ouvindo Patty Ascher, com "I Say A Little Prayer".

 

 



Escrito por Ana Felippe às 00h24
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Um poema à toa

Agridoce

 

Áspera, cortante,

Porém doce, melódica,

Harmoniosa

Assim se permitia conhecer.

Assim se mostrava.

Era assim que ele a amava.

 

***

Trilha sonora: Ouvindo "Andrea Doria", de Legião Urbana.

 



Escrito por Ana Felippe às 01h51
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